Thor Heyerdahl

 

Texto integral do artigo publicado na revista Mar & Mar, edição 22

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Thor Heyerdahl 
(1914 – 2002)

Dia 18 de abril [de 2002], em Colla Micheri na Itália, faleceu o norueguês Thor Heyerdahl, arqueólogo, zoólogo e geógrafo. Heyerdahl, em suas próprias palavras, dedicou a vida tentando negar que os oceanos fossem uma barreira para o deslocamento humano ou para o intercâmbio cultural.

Desviamos hoje um pouco o rumo de nossa coluna para fazer uma homenagem e visitar a biografia deste explorador que também, a sua maneira, demonstrou que “navegar é preciso” desde a pré-história.

Thor Heyerdahl nasceu em Larvik, Noruega em 1914. Após a conclusão de seus estudos de geografia e zoologia em Oslo, parte para a Polinésia, aos 23 anos, em a sua primeira expedição. Com sua esposa desembarca nas Ilhas Fatu-Hiva, sem víveres nem ferramentas, para ali permanecer por um ano. Durante este voluntário recolhimento surgem-lhe os primeiros esboços da teoria das migrações que daria origem, dez anos depois a expedição “Kon-Tiki”.

A tese de Thor era que os navegadores da América pré-colombiana teriam atingido a polinésia e dado origem ao seu povoamento. A base para esta suposição estava principalmente nas semelhanças culturais entre civilizações andinas pré-incaicas e povos da polinésia e na observação de semelhanças entre plantas e animais destas duas regiões.

Diante da descrença da comunidade científica da época, que via como impossível a realização de tais viagens, Thor e mais cinco companheiros (alguns dos quais nunca haviam navegado e nem sabiam nadar) construíram uma embarcação de troncos de balsa unidas por cordas e navegaram 8.000km durante 101 dias partindo de Callao, no Peru, e desembarcando em Toa-Motu, na polinésia Francesa. Era a Expedição “Kon-Tiki” que, sob a esfinge de uma divindade do sol comum a ambas as culturas, não apenas provou a possibilidade da travessia como modificou para sempre os métodos de investigação da arqueologia e da antropologia.

 Emblema da expedição Kon-Tiki

A jangada à vela construída era a reprodução mais fiel possível das embarcações oceânicas dos povos pré-incaicos. As informações sobre sua construção vieram tanto de representações entalhadas em objetos antigos como das reminiscências culturais ainda presentes em alguns grupos.

Eram nove troncos de balsa que foram colocados na água para encontrar suas posições naturais de flutuação e depois foram atados com cordas fabricadas com fibra de cânhamo. Sobre estes foram amarrados uma camada transversal de troncos menores e ainda um “estrado” de bambu trançado. A mastreação se resumia a dois mastros, um ao lado do outro na proa e atados juntos no topo. A vela quadrada era sustentada por uma verga feita com hastes de bambu. Nem um único prego, cavilha ou cabo de aço foi usado em toda a construção.

Kon-Tiki 

Foi a fidelidade aos métodos e materiais antigos que garantiu o sucesso da empreitada. Por exemplo, os registros indicavam que a balsa deveria se cortada no período do ano em que esta está pesada e cheia de seiva, ao contrário do que fazem as populações ribeirinhas que cortam a balsa quando esta está mais leve. Com o decorrer da travessia constatou-se que, em 3 meses, a balsa seca fatalmente encharcaria de água e afundaria!

Ou ainda, muitos insistiram que as toras deveriam ser amarradas com cabos de aço pois as cordas não suportariam. Testes posteriores mostraram que os cabos de aço, pelo movimento incessante do mar, cortariam pouco a pouco as toras de balsa semi-encharcadas e macias. O tamanho da embarcação, 9m, também foi alvo de críticas.  Mas justamente por ser menor que meio comprimento da ondulação dominante, a balsa subia e descia as ondas sem sofrer grande esforço estrutural.

E outras foram as soluções engenhosas daqueles povos antigos que vieram a se mostrar indispensáveis. O mesmo se dá com relação a muitas outras embarcações, como por exemplo os catamarãs de duas proas da Polinésia, as canoas de casca de jatobá dos índios do Xingu ou os “winter-summer boats” holandeses do século 18 que serviam a navegar tanto sobre água como sobre gelo.

O sucesso da Kon-Tiki permitiu a Thor Heyerdahl prosseguir em outras investigações. Após uma  série de estudos realizados nas Ilhas Galapagos ele se interessou pela possibilidade de egípcios terem atravessado o atlântico em veleiros de casco de junco e papiro. Construiu o “Ra”, de 45 pés, que partiu do Marocos e foi abandonado já muito próximo do Caribe por problemas de estrutura e dirigibilidade. Foi a vez então o “Ra II”, construído com correções, e com o qual fez a travessia até Barbados em apenas 57 dias.  

Ra II 

Entre diversas outras expedições e escavações em diversas partes do globo, grande parte auto-financiadas, em 1977 um outro barco é construído, o “Tigris”, de 50 pés, construído com junco do Iraque à imagem de antigos veleiros de carga Sumérios para navegar entre a antiga Mesopotâmia, pelo Tigre, até o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. No Tigris embarcam onze tripulantes, cada um de uma nacionalidade diferente. Thor esperava, desta forma, promover a integração dos povos e  os valores da tolerância.

A expedição Tigris tem um fim inusitado. Na entrada do mar vermelho, depois de cerca de 4 meses de expedição, o barco fica impedido de deixar o porto de Djibouti. Era o reflexo de vários conflitos bélicos que surgiam na região. Em protesto contra a guerra e a intolerância Thor e sua tripulação ateiam fogo ao Tigris.

Tigris

Isso não representou de maneira alguma o fim da luta, talvez apenas uma mudança de rota. Pouco a pouco o explorador ia cedendo espaço ao pacifista. Consagrado professor e pesquisador, Thor denunciava a poluição e a violência tornando-se um enérgico militante de organizações como a “Green Cross Internacional”, presidida por Mikhail Gorbachev, a “World Wildlife Fund for Nature”, “Pacific Science Congress” e outras. Permaneceu extremamente ativo até seus últimos dias.

Em abril deste ano, em uma cidade perto do mar, perdemos o cidadão do mundo, Thor Heyerdahl. O explorador Thor cumpriu sua missão pessoal de provar que os oceanos não foram barreiras para os povos antigos. O pacifista Thor nos legou a missão de fazer com que os oceanos sejam a ligação permanente para a tolerância e o convívio entre todos os povos.

Bons ventos, até a próxima edição,

Guilherme Azevedo.

[Guilherme Azevedo é engenhero naval, professor e está construindo seu próprio veleiro. www.guilhermeazevedo.com]

 

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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EVERSBERGET, Snorre. Thor Heyerdahl: The Explorer. Oslo: J.M. Stenersens, 1994.

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HEYERDAHL, Thor. A Expedição Kon-Tiki. 2. ed. São Paulo: José Olimpio, 1999.

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HEYERDAHL, Thor. Na trilha de Adão – Memórias de um filosofo da aventura. 1. ed. São Paulo: Cia Letras, 2000.

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JACOBY, Arnold. Senor Kon-Tiki. London: Allen and Unwin, 1968

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RALLING, Christopher. Kon-Tiki Man. London: BBC Books. 1990.

 

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LINKS

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http://folk.uio.no/janrt/hey.html (Thor Heyerdahl and the Kon-Tiki Museum)

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http://www.gci.ch/greencrossfamily/board/bios/heyerdahl.html (Green Cross International)

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http://www.museumsnett.no/kon-tiki/Expeditions/ (Kon-Tiki Web: Museum)

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http://www.plu.edu/~ryandp/thor.html (Thor Heyerdahl - Polynesian Archaeology)

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